31 Jan
Escrito por Rafael Rigues em Games, Hardware, Notícias, Pirataria, Software
Quem acompanha as notÃcias do mundo dos games já deve ter ouvido falar que um grupo de hackers conseguiu quebrar a segurança do Wii e executar pequenos trechos de código. O feito envolve a modificação de um savegame do jogo “The Legend of Zelda: Twilight Princess” e não é nada fácil: para ser aceito pelo jogo, o savegame tem de ser digitalmente assinado com três chaves diferentes. Uma delas é única para cada console.
Mas todos os esforços para “quebrar” a proteção de um console começam assim, bem pequenos. O primeiro “hack” para o PSP envolvia carregar uma imagem .TIFF especialmente preparada, que causava um buffer overflow e permitia a execução de código. A Sony contra-atacou, o jogo de gato e rato começou, os hackers passaram à frente… e hoje há firmwares “customizados” com paridade de versão com o original (ex: Sony lança o 3.90, hackers lançam seu 3.90 poucas horas depois), todos os recursos oficiais e mais alguns extras (como a capacidade de rodar jogos de PS1 “ripados” de seus CDs originais) e até mesmo atualização online. Aliás, num ato irônico, este recurso usa ferramentas da própria Sony “cooptadas” a baixar a versão alternativa. Resumindo: é como o estouro de uma represa, que começa com uma rachadura e um filete de água no ponto mais fraco, que vai crescendo até que tudo vem abaixo.
O Wii já foi parcialmente “hackeado”. Há modchips que permitem a execução de cópias dos jogos originais, gravadas em DVD-R, e é possÃvel executar uma ampla gama de programas como emuladores e media players originalmente escritos para o GameCube.
O problema é exatamente este: no modo GameCube, os recursos mais interessantes do Wii, como os controles sensÃveis ao movimento, rede sem fio, memória RAM extra e leitor de cartões SD, são desativados. Com isso, os desenvolvedores ainda não podem tirar proveito de todo o potencial do console. Um hack que permita executar código no modo nativo, com acesso a todos os recursos do hardware, pode abrir as portas para uma enxurrada de softwares inovadores ou, no mÃnimo, curiosos, quer a Nintendo queira ou não. Já há grupos, por exemplo, interessados e prontos para começar a adaptar o Linux para o console, assim que possÃvel.
O site australiano Atomic, especializado em computação de alto desempenho, publicou uma entrevista muito interessante com Bushing, um dos hackers envolvidos na “quebra” do Wii. A conversa é longa, são quatro páginas, mas é cheia de “insights” que mostram como funciona o processo, as dificuldades e surpresas encontradas no caminho e perspectivas futuras.
Por exemplo, o texto menciona como, após conseguir as chaves de criptografia de um console, decodificar um DVD com um jogo e pôr as mãos nos arquivos correspondentes ao firmware com o sistema operacional, os hackers tiveram uma bela surpresa: ao desassemblar o código, descobriram que não era um programa para um processador PowerPC, como o Broadway usado no Wii. O programa era para processadores ARM.
E o Wii não tem um processador ARM em lugar nenhum da placa. Fuçando mais um pouco, os hackers o encontraram: ele fica embutido dentro do chipset de vÃdeo, chamado Hollywood. A Nintendo o escondeu, para dificultar a engenharia reversa do console. O chip, apelidado de Starlet (”estrela”, porque fica em Hollywood), controla toda a comunicação entre a CPU e a memória, acesso à s chaves e restrições no acesso ao hardware no modo GameCube, entre outras coisas.
A entrevista é um pouco técnica, mas vale o esforço de leitura. É raro poder dar uma “espiadinha” dessas no modo de funcionamento de alguém que, acima de tudo, não resiste a um desafio.
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